05/04/2017

PROFESSORA DÁ LIÇÃO DE AMOR AO MUDAR DE VIDA PARA CUIDAR DA MÃE COM AVC: “PASSEI A VER VIDA DE MANEIRA MAIS SIMPLES”

Ângela Cibiac conta a história em livro para mostrar vida real de acidente vascular cerebral



Há dez anos, a mãe da psicóloga e professora universitária Ângela Cibiac, 64 anos, sofreu um AVC (acidente vascular cerebral) hemorrágico. O quadro dela era gravíssimo. À época, Ângela estava nas vésperas de defender a tese de seu doutorado.
Por amor a Dona Carminha, a professora deixou a carreira de 30 anos de docência na Faculdade e Universidade de Divinópolis, em Minas Gerais, onde também morava, e seguiu Balneário de Piçarra, em Santa Catarina.
Apesar de todos os obstáculos, ela nunca perdeu a esperança na recuperação da sua mãe e, hoje, revela os detalhes no livro em A vida em dois tempos – Acidente Vascular Cerebral, em que conta como é conviver com alguém que sofreu o derrame.
Leia a entrevista completa com a autora:
R7— Quando sua mãe teve AVC? Como foram os primeiros dias?
Ângela e a mãe, Dona Carminha
Arquivo pessoal
Ângela Cibiac — Minha mãe teve AVC quando estava com 80 anos. Foi em setembro de 2006. Portanto, lá se vão mais de dez anos. Meu irmão estava na casa da mamãe se recuperando de uma cirurgia e viu pela manhã que a luz do quarto dela estava acessa. Foi ver e achou ela no chão bulbuciando palavras. Como ele é formado em educação física tem certo conhecimento e identificou o AVC e a levou para um hospital em Itajaí,(SC) e ela ficou na UTI. Tudo foi um baque. Paralelo a isso, dois dias depois estava prevista a defesa do meu doutorado. Tive que me manter firme, mas não foi fácil, dava vontade de chorar. Uma amiga minha me apoiou muito para que pudesse me concentrar e passar. Deu certo! Viajei e cheguei no hospital a noite desesperada. Encontrei ela consciente, mas sem abrir os olhos. Falei que o doutorado havia sido um sucesso. Ela ficou feliz. Aquilo me motivou ainda mais para as batalhas que viram.
R7— O que você sentiu quando soube que sua mãe tinha tido AVC? 
Ângela Cibiac — Senti medo por não saber o que ia acontecer. Nossa vida mudava completamente a partir daquele momento. O AVC hemorrágico normalmente é fatal ou deixa muitas sequelas, mas isso você aprende no dia a dia, ao segurar um prato de comida e/ou ajudar a dar banho naquela pessoa que sempre foi muito independente. Hoje, precisa de você em muitos momentos. O começo foi extremamente difícil pois, ela estava bem apesar do AVC. E, depois,foi decaindo ao passar dos dias.
R7 — Qual foi um dos momentos mais difíceis?
Ângela Cibiac — O momento de sair do hospital e ir para casa. Tive de aprender o modo correto de colocar ela na cadeira e fazer todas as atividades do dia a dia. Dar banho, vestir, alimentar, fazer higienização e não tinha prática em nada disso. Fui aprendendo tudo com a prática mesmo. Foi um aprendizado para minha vida. Algo que nos faz dar mais valor à saúde que temos hoje.
R7 — Como está a saúde da sua mãe hoje?
Ângela Cibiac — Sempre estimulo ela no que posso. Ela se alimenta sozinha apesar de ter um dos lados paralisados. As vezes está lúcida e outras vezes não. Mas sempre procuramos respeitar esses momentos e não contestar quando tem algum tipo de alucinação. Ela tem uma parte do cognitivo preservado. Quadro estável. As vezes, precisa ter muita paciência para dar os remédios, explicar o motivo dela tomar a medicação.
R7— O que sente hoje ao vê-la com limitações?
Ângela Cibiac — Gratidão por ela estar viva. Por tê-la aqui comigo viva apesar de todas limitações. Afinal, o AVC que ela teve foi muito grave, porque foi o tipo hemorrágico. Em alguns momentos, sinto saudades de vê-la ativa como ela sempre foi. Fazendo suas pinturas, cursos de contabilidade, viajando ou cuidando da família como sempre fez.
R7— Você chegou a mudar de cidade por causa da condição da sua mãe? Como foi isso para você?
Ângela Cibiac — Sem sombra de dúvidas! No começo, (entre 2007 e 2009) fui morar com mamãe no litoral de Santa Catarina por um desejo dela. Essa fase foi a mais difícil que passamos, pois estava muito agressiva. Ficamos dois anos lá. Só que para isso tive que pedir demissão da faculdade onde dava aulas. Mas não arrependo. Depois que perdemos papai, ela nunca mais quis relacionamento. Eu morava em Divinópolis (MG) e trabalhava em universidades e tinha vida estável. Quando aconteceu, mudei completamente minha vida. Hoje, moramos todos (eu e meus irmãos) na cidade de Goiânia (GO).
R7— Durante esses anos, você fez algum tipo de tratamento psicológico para lidar melhor com a situação? 
Ângela Cibiac — Não fiz, aprendi tudo na prática. Tudo o que aprendi na teoria me ajuda um pouco a lidar com a situação, mas o maior aprendizado é no dia a dia. Tenho o apoio dos meus irmãos, que são dois, e eles me ajudam muito. Cada um ao seu modo. Minha irmã é mais calma, e o outro irmão, sempre tomou frente das coisas. Teve atitude sempre. Nos unimos mais e, às vezes, choro com eles. Mamãe tem cinco netos e sete bisnetos. O meu filho mais velho, hoje, aos 35 anos, ficou muito revoltado na época por vê-la naquela situação e chegou a dar socos na parede, tive que conversar muito até ele se acalmar e lidar com a situação de maneira mais ponderada.
R7— Você mudou depois do AVC da sua mãe, ou seja, a sua forma de ver a vida mudou?
Ângela Cibiac — Sim. Passei a ver vida de maneira mais simples. Passei a valorizar cada pequeno gesto como conseguir comer só ou conseguir se mexer só sozinho. Você passa a se preocupar mais com seu próximo principalmente com quem tem algum tipo de limitação como a mamãe. No cinema, por exemplo, acho errado o espaço para cadeirantes ficar isolado lá na frente. Isso tem de ser discutido através de políticas públicas verdadeiras de inclusão. As cidades ainda estão longe do ideal nesse quesito. Você também aprende a ser mais tolerante com as pessoas. Nem todo dia é fácil cuidar da mamãe. Muitas vezes as próprias cuidadores que nos ajudam não tem a devida paciência para fazer as atividades, como dar banho e vestir ela por exemplo. Aprendi a ver e valorizar a vida em detalhes. Dia 25 de março ela completou 90 anos e a família estava toda reunida. Ela viu o bisneto de quatro meses e disse que era muito bonito. Essas pequenas coisas dão sentido à vida. É gratificante tê-la conosco.
R7— Por que decidiu escrever o livro?
Ângela Cibiac — Para ajudar outras famílias a lidar com algo tão sério quanto um AVC. E também para que as pessoas não tratem idosos na mesma situação como se fossem coitadinhos. Temos de estimular através da memória, das fotos, histórias e algumas atividades como por exemplo, jogar uma pequena bola para estimular a coordenação motora.
R7— Acha que poderia ter feito algo diferente em relação aos cuidados com ela?
Ângela Cibiac — Não! Fiz tudo de melhor que estava ao meu alcance. E não me arrependo. Aos estão na mesma situação digo para terem fé e continuar acreditando na recuperação.
R7— Pretende escrever outros livros?
Ângela Cibiac — Estou escrevendo outro, que é sobre educação no ensino superior e não pretendo parar por aqui. Com relação a esse livro do AVC ainda não atingi meu público que são as famílias e os cuidadores de idosos que apresentam algum problema de saúde e necessitam de cuidados permanentes.

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