16/10/2017

A MALDIÇÃO DO VIAGRA. VALE À PENA LER



Relutou, estava ficando velho, seria como uma rendição, mas ainda era um homem cheio de amores, acostumado as paixões e aos prazeres da carne. Entrou na farmácia e pediu uma caixa de Viagra, o balconista lhe perguntou se era o de 25 mg, 50 mg, ou de 100 mg, seu ímpeto inicial foi o de pedir o de 25 mg, mas para garantir pediu o de 50 mg, o de 100 mg, jamais, seria a total e completa rendição. O balconista de forma irônica ao entregar o medicamento pergunta se o Viagra é para um parente seu, sua integridade e seriedade não permitiriam a mentira e muito menos a ironia.
– É para mim mesmo, e você meta-se com a sua vida, seu idiota!
Trancado no banheiro lia a bula atentamente, assustando-se com as contra-indicações e efeitos colaterais, encheu-se de coragem, amava a sua mulher, e engoliu o comprimido, estava feito, olhou para o seu relógio de pulso e começou a marcar os 60 minutos de que necessitaria para evidenciar os resultados esperados. Começou a insinuar-se para a sua esposa, abraçou-a por trás, beijou a sua nuca, virou-a, deu-lhe um beijo prolongado, elogiou a sua beleza que o tempo com toda a sua maldade não tinha conseguido abalar, suas carnes ainda rijas, e ela respondeu maravilhada a esta súbita incursão amorosa fora de hora de seu marido, sentindo-se desejada. Mas ela lhe lembrou que ainda faltavam algumas coisas para completar o almoço, e lhe deu uma pequena lista de compras, saiu em direção ao mercado de olho nos minutos, faltavam 45, fez as compras rapidamente, não comparou os preços e no caixa, tentou se desvencilhar o mais rápido possível, faltavam 27 minutos, no retorno para casa encontrou um amigo que o parou para contar uma novidade, daquelas que quase sempre só interessam para quem conta, começando a sentir a face afogueada e o início de calores íntimos, simulou uma indisposição intestinal para interromper a conversa indesejada, despediu-se e andou apressadamente, quase a correr, fato que fazia aumentar o fluxo sanguíneo e por consequência o antegozo do que viria pela frente, o elevador enguiçou, o porteiro conseguiu abrir a porta , galgou de dois em dois os 4 andares, conseguiu chegar, largou as compras em cima da mesa da copa e arfando pela falta de ar, fruto do esforço, da agitação e do desejo, toma a esposa pelos braços e a beija apaixonadamente, que estupefata diante do arroubo juvenil de seu marido, larga o pano de pratos sobre a pia e se abandona nos braços de seu velho homem e companheiro de muitas jornadas, começam ali mesmo na cozinha a se liberarem de algumas peças de roupas, como se fossem dois jovens amantes. A campainha da porta toca, era a sobrinha que viera do interior, que chegava mais cedo para a visita esperada a noite, visita longa, daquelas para “botar a conversa em dia”.
Enquanto as duas mulheres conversavam animadamente na cozinha, ele no banheiro, dava a descarga no vaso, levando com ela os comprimidos remanescentes, não passaria mais por aquela ansiedade, dali para a frente, até quando Deus e a sua genética permitissem, seria só ele mesmo, sem artificialismos, justificava-se, enquanto pelo vaso escoavam as suas efêmeras esperanças de alguns minutos de juventude eterna.
Do Observatório da Literatura





*Robson Pires

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